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Artigo

RELATOS SELVAGENS, DE DAMIÁN SZIFRON

Relatos selvagens

Fábia Badotti Garcia Herrera

Relatos Selvagens foi o filme mais visto na história da Argentina. No Brasil,
o filme estreou na 38ª Mostra Internacional de Cinema em 2014 e segue
em cartaz até a presente data na Caixa Belas Artes, em São Paulo.

O cineasta Damián Szifron captou algo da necessidade humana e o
transformou em filme, relatando a história de cada personagem. O filme
me causou tal impacto, que resolvi escrever sobre ele, pois a escrita é
sempre um modo de representar e organizar internamente nossas
emoções, e como exercício, fundamentá-las teoricamente.

O filme oferece a oportunidade de fazermos conjecturas psicanalíticas
sobre os personagens e sobre suas histórias. Farei uma transposição da
linguagem cinematográfica para a linguagem psicanalítica, utilizando
psicanálise aplicada. O filme poderia ser chamado de "Histórias de ódio e
de raiva", cada relato também poderia ter um nome, de acordo com a
psicopatologia em jogo, além de identificar cada história de acordo com o
estudo de seus personagens.

A notação sugerida por Bion em "A grade" serviu de apoio para a escrita
deste trabalho. Como a teoria psicanalítica nos é dada a priori, posso
aplicá-la, e o filme serve para reconhecê-la, praticá-la e firmar a
compreensão de alguns conceitos que surgirão por meio dos personagens
e da escuta. Utilizamos essa metodologia da aplicação da psicanálise em

seminários da SBPSP, sob a coordenação de Marion Minerbo; alguns
textos foram publicados no Jornal de Psicanálise e na Internet.

A proposta é de um exercício, tipo exercício clínico, e a dinâmica consiste
no seguinte: primeiro ouviremos o personagem, como aquele que vem à
clínica para uma primeira entrevista. Segundo, farei hipóteses de como
ouço a subjetividade do paciente. Terceiro, as articulações
metapsicológicas de acordo com as teorias implícitas baseadas em Freud,
Klein, Winnicott, Green, Bion e outros, de modo a se tornar um exercício
teórico-clínico. Para fins de organização na escrita do exercício proposto
utilizei conceitos complementares ao modelo teórico de Freud, que são
self, Eu, sujeito. O Eu, com letra maiúscula, seria a junção do ego e do self.
Usei conceitos de Green na terminologia neurose e não-neurose (2002).

O ego seria como a crosta do pão que se diferenciou do miolo, pelo calor
que sofreu. Ele se originou na diferenciação do id e zela pela integridade
física e psíquica do sujeito. Estão ali localizados os mecanismos de defesa
utilizados contra moções pulsionais, angústia, emoções, exigências do
superego etc.

Freud diz que o self é o primeiro objeto de amor unificado (1914/1996g), é
parte do Eu e é constituído pelas identificações (1917/1996e) que o
sujeito faz ao longo da vida (1923-1925/1996c). Para Melanie Klein, o self
é constituído por um conjunto de objetos internos, em parte conscientes,
em parte inconscientes.

Se a emoção for raiva ou ódio, as implicações clínicas são muito diferentes
e a visão metapsicológica do psicanalista deve ser clara, pois avisa qual
tipo de funcionamento mental está ocorrendo ali, desde o ponto de vista
de uma organização neurótica ou não-neurótica. Assim, orientei-me para
discorrer sobre dois aspectos: o primeiro sobre o que provoca situações-

limites de eclosão, de ódio ou de raiva, desde o eixo narcísico ao eixo
objetal, e o segundo, a pulsionalidade e as defesas erigidas tanto na
intrincação da pulsão de vida e pulsão de morte quanto na desfusão
pulsional, na função desobjetalizante (Green, 1988b).

Os protagonistas são traumatizados e sentem ódio dos objetos que
produzem neles as mesmas aflições que os objetos primários.

Os personagens do filme executam ou reagem contra o objeto conforme
sentem a integridade do Eu ser ameaçada. Podem ser ameaças contra a
integridade do ego, angústias de aniquilamento, fragmentação, separação,
intrusão, castração, exclusão, engolfamento etc.

Se as ameaças forem contra seu self, ou seja, sua autoestima, aparecem
figuras como humilhação, inferioridade, vergonha, falta de dignidade, de
honra etc.

Falei sobre o filme e agora vamos "ouvir" ou "sonhar" a subjetividade de
cada protagonista.

Relato 1

Pasternak

Gabriel Pasternak não aparece em cena, vemos apenas um vulto
entrando na cabine do comandante. Conhecemos o personagem pelos
relatos dos outros. Ele poderia pensar assim:

Gabriel – Gabriel Pasternak sou eu, desde pequeno fui mal
compreendido, eu queria ir bem na escola, mas não conseguia aprender
nada, meus amigos faziam bullying comigo. Quando cresci, tive uma
namorada que me traiu com meu único amigo. Ela me humilhou, pois
sempre fui muito bom namorado. Ela era tudo o que eu tinha. Por isso
sinto ódio de tudo e de todos.

Também me senti muito humilhado por aquele crítico de música que
me arrasou com um comentário sobre meu desempenho, acabou com
minha carreira musical, que era justamente uma tentativa de agradar
meus pais.

Minha professora primária, que me fez repetir o ano, foi injusta e nunca
a perdoei. Assim como me humilhei para Ignácio Fontana e sua turma.

Meu psiquiatra, que cobrava as consultas cada vez mais caro, não sabe
quanto eu necessito dele. Não posso viver sem ele, pois me fez ver quanto
meus pais falharam comigo. Mas ele foi tão mau quanto eles. Os dois
estavam sempre juntos, exigindo mais e mais, não havia lugar para mim.
Queriam que eu fizesse tudo por eles, sem me deixar ser e fazer o que
quisesse. Vou jogar o avião contra meus pais. Eles foram terríveis, pois não
acolheram minhas angústias, por isso sinto tanto ódio. Eles depositaram
suas frustrações em mim.

Estou sempre tentando agradar, mas as pessoas acham que eu sou
chato e inconveniente. Agora vou me vingar num plano perfeito, não
sabem quão bom eu sou.

Hipótese sobre a subjetividade do protagonista

O turbilhão de emoções dentro de Gabriel não permite que ele pense. Ele
sente tanto ódio, que precisa se vingar de todos e eliminar o alvo de dor.

O que o leva a sentir ódio?

Articulações teóricas

Gabriel Pasternak tem uma enorme ferida narcísica que lhe causa dor e
sofrimento. Para amenizar a dor, mobiliza defesas. No sentido de proteção
do ego, a autoconservação (Freud, 1915/1996d) cinde os objetos em bons
e maus (Klein, 1946). A cisão é um mecanismo de defesa primitivo que
tende a manter um objeto absolutamente bom e outro absolutamente
mau, que deve ser eliminado para manter a autoconservação do ego. O
trauma precoce é revivido nos relacionamentos com objetos, pois estes
repetem as inadequações dos objetos primários. O sujeito sente ódio, pois
a dinâmica é vivida como "ou eu ou ele", então tende a querer eliminar a
fonte que ameaça a integridade do seu Eu. Pela cisão, o sujeito não tem
como recorrer ao amor e ao perdão e mitigar o ódio (Klein, 1946).

Do ponto de vista do self, a autoestima de Gabriel Pasternak é pobre, não
conseguiu estudar, trabalhar nem se dar bem no amor. Toca mal, canta
mal, trabalha mal. Sente humilhação, vergonha, inferioridade etc.

Qual seria a falha do objeto para ter instigado tanto ódio? Sabemos que
seu psiquiatra disse que os pais eram muito exigentes e jogavam suas
frustrações sobre Gabriel. Suas angústias poderiam ser de intrusão, pois
tinha que fazer o que os pais exigiam e dificultavam o vir a ser dele como
sujeito. Do ponto de vista do self, a tendência era que se sentisse
submetido e humilhado.

Então, pelo ódio paranoico, idealiza um plano de vingança de todos
aqueles que o fizeram sofrer. Freta um avião com todos os seus
"inimigos", inclusive seu psiquiatra, objeto a quem transfere todo o seu
ódio e aponta a aeronave para seus pais. Vai destruir todos de uma vez,
incluindo a si mesmo. Em "Luto e melancolia", Freud diz que a expressão
máxima da pulsão de morte é a melancolia, que leva o sujeito ao suicídio.

Relato 2

Os ratos

Aqui vamos ouvir três personagens e suas diferentes posições subjetivas:

Rafael Cuenca – Estou com fome. A moça que me atende é ignorante,
assim como todas as pessoas com que tenho que me relacionar. Neste
lugar não há ninguém tão bom quanto eu. Eu sei de tudo, tenho metas
determinadas, como me candidatar ao cargo de prefeito, e me dá ódio
quando aparecem empecilhos na minha frente ou quando não veem que
tenho um brilho imenso e uma capacidade ímpar.

Garçonete – Esse foi o homem que arruinou a vida da minha família.
Tenho raiva dele. E tenho vontade de dizer-lhe umas poucas e boas, mas
me sinto tão impotente, que na hora não sai nada da minha boca. Queria
fazer justiça, e que ele devolvesse tudo o que nos fez perder. Não seria
capaz de matá-lo, muito menos o filho dele, que não tem nada a ver com
isso. Deve ser uma vítima assim como eu e minha família.

Cozinheira – Aquele homem não merece viver. É tão fácil exterminar a
vida dele. É só eliminá-lo. Não atrapalha mais. Além disso, não tenho nada
a perder. Quando eu estava na cadeia era melhor. Sabia que iria ter o que
comer e não me preocupava com nada, pois lá eu não podia matar
ninguém porque estava sempre vigiada. Aqui estou à mercê dos meus
instintos, que não controlo muito bem. Comigo é assim: "fez, pagou". É a
lei do Talião. Eu não sinto culpa, nem remorso.

Hipóteses sobre a subjetividade dos personagens

Supondo que os três marcassem um consulta com um psicanalista,
poderíamos supor que Rafael Cuenca não iria à consulta, pois não tem do
que se queixar, sua meta é clara: quer obter proveito de tudo e de todos,
mesmo sendo de lugares ilícitos. Nada vai impedir que ele realize seus
projetos, mesmo que tenha que prejudicar a vida de muita gente. A
arrogância prevalece.

A garçonete foi a sua consulta, porque ela sofre com as atrocidades que
viveu, precisa falar sobre isso. Sente pena da mãe, precisa trabalhar, leva
uma vida honesta. "Não tem boca para nada", mas possui condições de
simbolizar e estabelecer novas representações. Tem objetos preservados
em sua vida.

A cozinheira não foi à consulta, ela resolve as coisas de um jeito muito
simples, atua pelo ódio. Não pensa, mata, pois sua lógica é amoral. Há na
faca com a qual irá matar o político, a inscrição leão, é uma referência ao
animal? O impulso violento e destrutivo começa a dar sinais de sua
existência.

Articulações teóricas

Rafael Cuenca é um homem narcisista que parece funcionar de um modo
subjetivo e fálico, com predominância de angústia de castração. Precisa
que o objeto seja o responsável pelo reconhecimento de seu valor,
enaltecendo seu ego, fazendo-o brilhar diante dos demais. Se contrariado,
rebela-se atacando o objeto, que está submetido a um papel secundário.
Sua lógica é competitiva, e ele sempre é o que sabe mais. Ele passa a odiar
o objeto sempre que há competição, pois sente humilhação narcísica.

São as estruturas psicopatológicas presentes na nossa cultura
contemporânea, descrevendo muito bem as figuras políticas presentes em
nosso meio, em que a lógica é "levar vantagem em tudo" custe o que
custar, apoderando-se do que é do Estado.

São estruturas que Green chama de não-neuróticas, por estarem no limite
da atuação. Prevalece o ataque ao vínculo e sua destruição (Bion, 1994).

A garçonete possui características neuróticas, preocupa-se com o objeto
de amor, pois está internalizado como tal, é fonte de amor e perdão. Ela
falha na função de mitigar o ódio, pois sente medo da retaliação, inibindo
o direito de buscar justiça. Pode salvar o objeto da sua raiva por meio da
reparação. A angústia é de separação pela perda do objeto de amor.

A cozinheira sente ódio do mundo, que, para ela, é mau e cruel. Precisa da
segurança da prisão, onde sente estar contida contra eclosões das pulsões
violentas e assassinas, tais como as "pulsões de destruição voltadas para o
mundo e contra outros seres vivos" (Freud, 1920/1996a), ou ainda, a
expressão máxima da pulsão de morte depois do desintrincamento com a
pulsão de vida.

Relato 3

O mais forte

Um homem dirige seu carro, numa bela paisagem argentina, ouvindo uma
romântica trilha musical. Ele poderia estar pensando:

Diego Hurralde – Que prazer enorme dirigir meu carro com essa música
de fundo, essa paisagem maravilhosa que me faz sentir tão bem. Estou no
paraíso. Ninguém me importuna. Só eu e os meus pensamentos… Mas
quem é esse que não me dá passagem? Esse carro velho caindo aos
pedaços! Esse negro ressentido não quer me deixar passar. Está me
provocando? Vou ultrapassar e mostrar o dedo do meio. Vou recorrer à
minha mãe do coração porque ela me acalma quando me lembro dela.
Meu Deus, o pneu tinha que furar agora?! Que raiva! Tenho que trocá-lo,
vou me sujar e não sei fazer isso direito, não sou para essas tarefas
pesadas e sujas. Lá vem o cara, que medo! Vou me fechar dentro do carro
e tentar um aceno ou diálogo. Ele é mais forte do que eu. Ele vem com
tudo.

No carro caindo aos pedaços, o motorista poderia estar pensando:

Mario – Eu sou o dono desta estrada e esse playboy se sente o dono do
mundo. Acha que só porque tem um carro importado pode usar a estrada
toda. Vou mostrar a ele o que eu posso fazer para tirá-lo do sério. Ah,
agora está trocando o pneu. É minha chance de me vingar dessa gente.
Vou acabar com o carro dele, quebrar todos os vidros, vou cagar e mijar, e
fazer o maior estrago! Nada pode parar o meu ódio. Vou humilhar esse
playboy até a morte.

Quando Diego poderia ir embora, ele volta:

Diego Hurralde – Fiquei com muito medo, fui embora… não… vou voltar,
vou me vingar, meu carro é muito mais potente, vou jogar o carro dele no
rio. Essa briga está excitante. Agora é questão de vida ou morte. Preciso
cuidar da minha vida que está em risco. Ele gosta de bater e eu estou
gostando de apanhar. Mas ele também gosta de apanhar, e eu de bater
nele.

Hipóteses sobre a subjetividade dos personagens

Diego parece viver uma vida confortável, tem condições de trabalhar
bem e sentir-se realizado. Aparentemente ele pode amar, pedir ajuda para
a "madre mia de meu coração" (suponhamos que a mãe dele seja
brasileira). Sente raiva quando alguém atrapalha seu caminho, mas pode
esquecer sem que o sentimento o perturbe. Comete pequenos atos
falhos, como demorar-se para guardar o pneu do carro, dando tempo para
que o outro reaja.

Mario tem muito ódio, seja de sua condição ou da condição alheia. Por
isso ele provoca o tempo todo. Ele quer dominar e quer que os outros se
submetam a ele, pois pretende provar que ele é mais forte.

O sadomasoquismo se faz presente aqui nos dois homens engalfinhados
numa luta interminável, entre mordidas e socos. E por esses delírios
terminam por morrer abraçados no fogo ardente da paixão.

Articulações teóricas

Diego parece ter um objeto bom internalizado, a quem recorre quando
está em situação de angústia para acalmá-lo (Minerbo, 2009). Ele sente
raiva quando o atrapalham, mas do ponto de vista do self não sente que
sua autoestima é atacada. As pulsões de autoconservação e pulsão de vida
fazem com que o Eu se defenda e busque segurança. Poderíamos dizer
que ele possui uma subjetividade neurótica. Nesse tipo de organização, a
pulsionalidade é ligada e as pulsões libidinais predominam sobre as
agressivas. Quando a pulsionalidade é ligada e o afeto se liga às
representações, há possibilidade de pensamento.

Em Mario há prevalência de uma pulsionalidade não ligada, em que o ego
frágil em suas funções não consegue fazer as ligações e conter a violência
das pulsões, características da subjetividade não-neurótica. Parece que a
rede de representações está cheia de buracos e, por isso, cheia de falhas
na função simbolizante. Uma das vicissitudes da pulsionalidade não ligada
pode ser a descarga para fora do aparelho psíquico, no acting out. Outra
pode ser o ataque ao Eu, sob a forma de um superego tirano. As angústias
são primitivas, e há fantasias de aniquilamento. Não há indícios de um
bom objeto internalizado, possivelmente por trauma precoce em que o
objeto não pôde acolher as angústias do sujeito. Não há lugar para o
prazer objetal, pois este é percebido como absolutamente mau, e deve ser

eliminado pela sobrevivência do sujeito. O sujeito está em posição
subjetiva paranoica. Para Piera Aulagnier, em alguns sujeitos, o ódio é o
eixo central da personalidade: "No sujeito paranoico, o ódio é o eixo
central por onde vão gravitar todos os seus sentimentos, reações e ações"
(Aulagnier, 1977, p. 260). Aparece o desejo de destruição porque o sujeito
sente que "é perseguido porque é invejado por um bem que possui (bem
material, sexual, ideológico) e pretende eliminá-lo porque representa um
perigo real" (p. 261).1

Há um intrincamento entre as pulsões de vida ou sexuais e de morte. A
pulsão de vida tende a juntar, amalgamar-se e se fusionar com a pulsão de
morte, ocorrendo variações infinitas, por exemplo, quando a tendência
agressiva se volta contra o sujeito na perversão, na tendência ao
masoquismo, na reação terapêutica negativa e no sentimento de culpa
presentes nos neuróticos (Freud, 1937/1996b). Freud diz no caso Schreber
que o ódio é proveniente do amor transformado em seu contrário, e o
delírio paranoico, uma defesa contra o desejo homossexual reprimido
(Freud, 1911/1996f). Por isso vemos o filme terminar com um casal
abraçado e a suspeita de um crime passional.

Relato 4

Engenheiro Bombinha

Simon Fisher é um engenheiro especializado em implosões, seu trabalho
requer cálculos e precisão. Ele poderia estar pensando:

Simon Fisher – Eu faço as coisas com muito critério, sou extremamente
cuidadoso, tenho responsabilidade sobre o mundo, trabalho com material
explosivo e preparo meticulosamente cada implosão, em que qualquer
movimento brusco pode detonar a bomba. Vivo assim, assoberbado pela
vida corrida e pelo sistema corrupto, que tende a ser injusto: são um
bando de miseráveis. Minha esposa não me valoriza, minha filha não me
dá atenção, e eu vivo trabalhando por elas, mas por mais que eu faça, elas
não ficam nunca satisfeitas, acham que eu falho sempre.

Hipótese sobre a subjetividade do protagonista

Simon Fischer é um sujeito relativamente equilibrado, mas vive como uma
bomba-relógio, pronta para ser explodida. Ele tem muitos recursos
internos e por isso conseguiu construir os externos: sua casa, que é
sentida como seu porto seguro, e uma família que o acolhe.

O que fez disparar a bomba Simon Fischer? Por que em determinado
momento o destino da pulsão agressiva passou para o exterior? O que o
fez realizar um plano para implodir o sistema apodrecido?

Articulações teóricas

Poderíamos supor que Simon Fischer possui uma subjetividade neurótica,
com o Eu relativamente bem preservado. Do ponto de vista do ego, suas
funções estão bem preservadas quanto a atenção, raciocínio, julgamento,
e ele apresenta ansiedades de separação, utilizando mecanismos de
defesa do tipo depressivos. Possui controle sobre sua pulsionalidade.

Simon é muito bem reconhecido na profissão que escolheu e se orgulha
disso. Esse orgulho alimenta seu amor próprio, seu self. Parece ser alguém
que mantém certa constância no equilíbrio entre a vida mental e a vida
exterior. Depois de seu carro ser guinchado, ele começa a perder: o
emprego, a família, os parentes e amigos. Sente que seu amor próprio
está em perigo.

O ambiente e o sistema corrupto em que vive tornam-se elementos das
séries complementares que fazem eclodir sua bomba interna. Freud diz
que os sintomas possuem várias causas, estão interligadas entre si, são
fatores congênitos e hereditários, experiências infantis, disposição, além
dos fatores atuais ou desencadeantes.

Simon Fischer sucumbe, em dado momento, voltando às pulsões
agressivas para o exterior, detonando o sistema corrupto, o que mostra
descontrole, porém, sem desligamento das pulsões. Ele se detém para
pensar e age. A destruição é posta no lugar da reconstrução de uma
sociedade mais justa.

Novamente o cárcere torna-se um fator de continência para a
agressividade. Ali é reconhecido como engenheiro Bombinha pelos
colegas presos, pela ex-esposa e pela filha; sente que sua autoestima está
a salvo e pode reconciliar-se com o mundo.

Relato 5

A proposta

Um carro entra numa garagem com a placa suja de sangue. Não há
nenhum personagem identificado que dirige o carro. Surge o enigma:
quem será o motorista? Os personagens se apresentam aos poucos e,
assim, vamos ouvir a subjetividade de três deles, os protagonistas da
história.

Santiago – Sou mesmo um incompetente, não me lembro do que fiz. Sei
que não tive coragem de socorrer a vítima do atropelamento. Que se dane
a vítima. Eu fugi, como costumo fazer, pois me sinto muito fraco e assim é
como minha mãe me vê. Eu preciso da proteção dos meus pais que sabem
resolver tudo, melhor do que eu. Acho que se eu me entregar seria mais
bem visto por meu pai, pois quero agradá-lo para que me reconheça como
alguém de valor.

Helena – Preciso defender meu filho, afinal ele é minha metade. Ele é
muito frágil, não aguentaria ficar na prisão. Precisa dos meus cuidados
ainda. E vou defendê-lo, pois o pai dele não o entende.

Mauricio – Ensinei ao meu filho o que é correto, mas ele é um
incompetente. Usa drogas, eu sei. Vou livrá-lo dessa enrascada, pois seria
a minha ruína se souberem que meu filho é um delinquente, ainda que
tenha que pagar para alguém assumir o erro dele, afinal todas as pessoas
têm um preço. Mas aqui quem manda sou eu.

Os demais personagens – o advogado, o inspetor e o jardineiro – estão
interessados em tirar proveito da situação dramática. Após o acordo, o
jardineiro sai encapuzado e morre pelas mãos do viúvo que se torna o
novo réu.

Hipóteses sobre a subjetividade dos personagens

Santiago é um adolescente que vive os conflitos de sua idade. Recorre ao
uso de drogas para manter-se em equilíbrio. Parece sentir-se incapaz de
lidar com a realidade, de assumir seus atos. Tem uma estreita ligação com
a mãe e um relacionamento complexo com o pai, buscando aprovação e
reconhecimento. Seria o atropelamento uma passagem ao ato de sua
violência?

Helena tem com o filho uma ligação estreita, são indispensáveis um para o
outro. Ela pede para que o advogado impeça seu filho de ir para a cadeia.
Ela defende seu filho como se ele fosse uma parte sua.

O personagem Mauricio demonstra uma complexidade maior, uma vez
que aparece como pai desesperado e um negociador implacável. No
relacionamento com o filho parece haver um sentimento de decepção em
relação a Santiago lhe parecer fraco, incompetente e usuário de drogas.
Ao fazer a primeira proposta ao jardineiro, demonstra frieza e cálculo. As
proposições que recebe do advogado, do promotor e do jardineiro foram
aceitas em um primeiro momento, até ficar tomado de raiva ao se sentir
espoliado por eles. Desfaz os acordos, demonstrando uma habilidade
ímpar de negociador, blefando sobre o término deles. Não há
preocupação sobre as consequências da experiência para Santiago.

Articulações teóricas

Pode-se supor que Santiago está com dificuldades em tornar-se um sujeito
no mundo. Vive uma ligação com a mãe, que parece funcionar juntamente
com o pai, como um paraexcitações para o filho. Para Freud, desde o
ponto de vista tópico, esse mecanismo é uma espécie de filtro que o

organismo apresenta para filtrar as excitações do mundo externo, antes
ainda que o organismo apresente os mecanismos de defesa contra as
excitações internas. Do ponto de vista pulsional, denota descarga da
violência na passagem ao ato em atropelar e consequentemente matar. É
a pulsionalidade não ligada, sem representação, o ódio. Por outro ângulo,
seria como dizer que Santiago não aceita a realidade. Estamos falando de
uma mente traumatizada, ao modelo da vesícula viva de "Além do
princípio do prazer" (Freud, 1920/1996a).

Helena é a mãe de Santiago, porém, seu nome não aparece, apenas nos
créditos finais. O que me evoca é que ela é mãe apenas e que precisa
proteger o filho do mundo mau. Precisa ser o paraexcitações dele, custe o
que custar. Ela defende uma parte sua, pois estabeleceu uma simbiose
com ele. Nesse sentido, mantendo a ligação simbiótica, do ponto de vista
do self, cabe a pergunta: – que lugar ela ocupa no mundo? Que lugar o
marido ocupa? Parece ser que a prisão desembocaria numa separação
entre ela e o filho, representada pelo parto que "não aconteceu", pois a
ligação permanece. Ela recusa ausentar-se da presença do filho por não
suportar essa posição. Helena aparece como mulher apenas quando pede
permissão ao marido para negociar com o advogado e os demais.

Mauricio fica assustado ao ser acordado pelo filho, posteriormente fica
irritado e triste com a notícia do acidente. Ele chama o advogado e
procura encontrar um substituto para que seu filho não seja incriminado.
Escolhe o jardineiro para fazer a proposta, seguidos do advogado e do
inspetor, os quais negociam entre si. Parece que Mauricio manteve o
equilíbrio em defender seu filho, talvez por sentir que ele é muito
incompetente. Há momentos de muita tensão. Ele se rebela quando
percebe que está sendo enganado, negando-se a continuar com as
negociações. A eclosão de raiva propicia o aparecimento do compromisso
com a verdade, e, pela primeira vez, sugere que o filho se entregue e
arque com as consequências de seus atos, o que seria motivo de cesura, e
talvez crescimento para todos, exercendo a função paterna que rompe a

díade mãe-filho. No final do relato ameaça denunciar o advogado por
extorsão.

Relato 6

Até que a morte nos separe

Finalmente chegou o dia tão esperado. A festa mostra o quanto foi
planejada. O clima inicial parece um tanto exagerado, os noivos são
aplaudidos quando entram no salão, a música incita a euforia instalada. Os
personagens poderiam estar pensando:

Romina – Eu estava tão feliz com o meu casamento, a festa, amigos,
parentes e, de repente, Ariel confirma que me traiu com uma colega do
trabalho. Estou desesperada, é como se o mundo escapasse dos meus pés.
Vou me jogar daqui de cima, porque não posso suportar tanto
desespero… Agora alguém me acalmou, tem uma voz serena, eu vou me
agarrar nele, porque ele é minha salvação. Vou transar com ele, o que
preciso mesmo é que ele me acuda de qualquer jeito. Vou me vingar de
Ariel por tudo que me fez passar, que ódio! Vou tirar todo o seu dinheiro,
só assim ele verá o que é sentir desamparo e abandono.

Ariel – Estou me casando com a mulher que amo. Tenho que renunciar
ao charme de Lourdes e de todas outras mulheres, o que é difícil para
mim. Eu gosto de sair com muitas mulheres. Minha mãe é muito grudenta,
não queria que eu me casasse, ela não me deixa em paz. Agora que
Romina descobriu minha traição, terei que consertar o estrago. Vê-la

enlouquecida me assustou, será melhor recuar? Ela tornará minha vida
impossível e arrancará o meu dinheiro? Melhor recuar, e ficar com ela,
afinal eu a amo.

Hipóteses sobre a subjetividade dos personagens

A felicidade de Romina foi interrompida pela constatação da traição do
noivo. Sua mente não consegue conter a dor e a humilhação, ela reage
com acting out.

Ariel reage diferentemente de Romina, seria subjetividade neurótica?

Articulações teóricas

Romina sentiu dor pela traição, teve ímpetos suicidas e homicidas, como
se a barreira de contato ou paraexcitações não pudessem conter a
angústia. Agiu sem pensar, se jogou nos braços do chefe de cozinha.
Pulsionalidade desligada. Ela não sabia ao certo o que queria com ele, era
um objeto de apoio naquela hora, alguém que contivesse suas angústias
de separação e de intrusão. Seu narcisismo estava em perigo, sentia-se
humilhada e ameaçada. Sentia ódio. Havia pouco ela se sentia mais
equilibrada. O objeto estava cumprindo o papel. Bastou a entrada de uma
terceira pessoa para o self ruir. Podemos acompanhar como a
subjetividade muda quando Ariel lhe estende a mão para conciliar-se com
ela. Os convidados ficam chocados com a falta de pudor dos noivos.
Parece que a experiência emocional foi vivida e transformada.

Ariel parece ter um modo subjetivo de funcionar diante das diferentes
pressões de Romina. Ao ser flagrado em sua traição, tenta recuperar seu

objeto de desejo. Corre atrás dela, procurando reparar o estrago. Sente
raiva e se assusta com o ódio que vê estampado no rosto dela.
Poderíamos supor que se situa numa organização genital, em que o objeto
é de amor. Quanto ao ego, a angústia é de separação e sua autoestima
está assegurada.

Chegando ao término do filme, temos a impressão de que ainda ressoam
dentro de nós as imagens e vozes dos personagens e suas emoções
suscitadas.

Referências

Aulagnier, P. (1989). O aprendiz de historiador e o mestre-feiticeiro: do
discurso edificante ao discurso delirante. São Paulo: Escuta.

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standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud
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1 Tradução livre da autora.